segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Sociologia e a centralidade do trabalho em questão

O mundo do trabalho tem sofrido profundas transformações nas últimas décadas: mudanças na estrutura ocupacional; mudanças na natureza e hierarquia das funções, aumento do desemprego, inovações tecnológicas e organizacionais no processo de trabalho. Esse conjunto de mudanças para alguns autores sinaliza o fim da "sociedade do trabalho".O objetivo deste artigo é discutir essa tese a partir dos argumentos apresentados por um dos seus principais defensores, o cientista social alemão Claus Offe.

Offe começa a sua discussão a partir da observação de que houve uma mudança na hipótese fundamental que norteava os estudos da sociologia clássica, qual seja, a de que a sociedade se estrutura e pode ter sua dinâmica explicada a partir do trabalho. Tal hipótese, argumenta Offe, não poderia derivar-se do simples fato de que a sociedade deve gerar produtos que garantam a sobrevivência de seus membros; tal fato, não passaria de uma "trivialidade sociológica".
As preocupações temáticas da sociologia atual, ainda segundo Offe, não colocam mais a centralidade do trabalho como sua hipótese fundamental. A questão principal, entretanto consiste em saber se essa mudança teórica corresponde à uma mudança objetiva. Seguindo nessa direção Offe lembra que para o conceito de trabalho ser teoricamente relevante é preciso haver uma homogeneidade entre as diferentes atividades concretas de produção. Segundo Offe a ideia de homogeneidade do trabalho teria seu fundamento em cinco argumentos: 1) dependência com relação ao salário; 2) subordinação ao controle da administração; 3) risco de interrupção na capacidade de receber salários; 4) força de trabalho através das associações de classe e 5) o orgulho coletivo expresso na idéia de que "só o trabalho produz riqueza".
O primeiro argumento do autor é de que, com as recentes mudanças no mundo do trabalho ocorre uma ruptura na unidade e homogeneidade do trabalho. O conteúdo do trabalho passa a ser dado por outros fatores que não sua designação comum de trabalho; o trabalho torna-se "abstrato de tal forma que pode ser considerado apenas uma categoria estatística descritiva, e não uma categoria analítica." Dentre os diversos fatores que teriam provocado a ruptura na homogeneidade do trabalho, Offe aponta para as diferenças entre as formas de trabalho "produtivas" e de "serviços".
Embora reconhecendo que as atividades de serviço "são esmagadoramente dependentes do salário, exatamente da mesma forma que na produção industrial de mercadorias", o autor coloca dois pontos de diferença entre o trabalho industrial e o de serviços: 1). no setor de serviços, "uma função de produção técnica que relacione insumos e produtos freqüentemente não pode ser fixada e utilizada como um critério de controle de desempenho adequado do trabalho"; e 2) "o trabalho em serviços
diferencia-se do trabalho produtivo pela falta de um "critério de eficiência econômica" claro e indiscutível, do qual se poderia deduzir estrategicamente o tipo e a qualidade, e o lugar e o tempo do trabalho "conveniente" ." (Offe, 1989,p.179)
A diferenciação fundamental entre os tipos de atividades estaria no tipo de racionalidade que distingue o trabalho mediador, regulador, ordenador e normalizante dos serviços e o trabalho industrial. Enquanto este último estaria subordinado a uma racionalidade baseada na produção técnica organizacional economicamente eficiente, o trabalho no setor de serviços seria dotado de uma racionalidade substantiva e teria como função normatizar a esfera do trabalho
industrial. Nesta função de sentinela e regulador, o trabalho de serviços estaria submetido a critérios de valor substantivos, qualitativos e humanos, enquanto o setor da indústria estaria submetido aos critérios de realização, produtividade e crescimento. 
Assim, o primeiro argumento de Offe é de que não se pode mais falar de trabalho na "ausência de uma racionalidade unificada"; tal argumento pressupõe, portanto, que existe uma diferença significativa e inconciliável entre a racionalidade na produção de bens e de serviços.
Offe avança uma segunda linha de argumentação complementar a da heterogeneidade crescente do emprego. O segundo argumento de Offe consiste na perda de centralidade subjetiva do trabalho, do estímulo dos indivíduos ao trabalho e da sua importância na estruturação da vida individual. A importância centralidade do trabalho subjetiva do trabalho segundo Offe poderia ser derivada de dois fatores: primeiramente o trabalho pode ser visto como um dever, uma imposição moral; em segundo lugar a centralidade do trabalho poderia ser o resultado da necessidade física.
O argumento de Offe consiste em que tanto como dever moral quanto como necessidade o trabalho perdeu sua importância. O autor aponta para a desagregação de tradições religiosas e culturais, juntamente com a ascenção do hedonismo consumista como fatores responsáveis pela desintegração da idéia de trabalho como dever moral. Além desses fatores Offe aponta para os "processos de racionalização técnica e organizacional (...) que resultam na eliminação do "fator humano" e de suas faculdades morais da produção industrial" (Offe, 1989,p. 184); "junto com a degradação do trabalho e a extinção das especializações profissionais freqüentemente observadas, a dimensão subjetiva do trabalho (...) também é enfraquecida" (Offe, 1989,p. 184). O autor aponta também para a diminuição do tempo de trabalho e ausência de continuidade biográfica que acabariam por levar o trabalho a ser visto como uma experiência ao lado das outras e com uma contribuição menor na estruturação da subjetividade. Finalmente Offe argumenta que o aumento da experiência do desemprego implica um provável desaparecimento da estigmatização moral que este envolve e a criação de uma cultura "fora do trabalho" e hostil a este.
Quanto ao declínio da centralidade do trabalho como necessidade Offe argumenta que os efeitos de incentivo representado pela renda obtida através do trabalho é cada vez menor, pois concorre com outros elementos que determinam o bem-estar e não estão diretamente ligados à renda. Assim, para Offe não há um estímulo positivo ao trabalho, "pelo menos nos níveis de salários e de saturação de
bens de consumo alcançados na Europa Ocidental" p. 189. De outro lado, o estímulo negativo representado pela ausência de renda na falta de trabalho também é enfraquecido, uma vez que o Estado do bem-estar e as negociações coletivas dissociam a renda do indivíduo de seu trabalho. 

(André Guimarães Augusto - https://revistas.pucsp.br/index.php/rpe/article/viewFile/11763/8484)

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